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sábado, 10 de novembro de 2012

O QUE EU QUERO SER ANTES DE ENVELHECER


          Acho que não há uma só pessoa a quem na infância nunca foi feita a indagação: O que você quer ser quando crescer? 
          Há uns trinta e poucos anos atrás me fizeram esta pergunta pela primeira vez, e ao longo dos anos, esporadicamente ela se repetia. Sinceramente, não consigo me lembrar das minhas repostas, e isso me fez refletir o porquê hoje eu me faço a pergunta do enunciado: O que eu quero ser antes de envelhecer? E, sinceramente, acho que não estou sozinho nesta; há outras pessoas a quem esta indagação é pertinente. 
          Percebi que nunca fui incentivado por amigos, parentes, ou mesmo pelos meus pais a me preparar para o mercado de trabalho - estudar para ser “alguém” na vida.

Não estou dizendo isso para simplesmente transferir a culpa, pois eu poderia ter sonhado sozinho. Eu poderia ter me despertado para isto observando a vida, mas infelizmente não foi o que aconteceu.

Aos dezesseis anos, após terminar o primeiro grau (ensino fundamental) arrumei o meu primeiro emprego em um jardim. Depois fui para uma marcenaria, onde trabalhei por um ano e meio.           Na sequência vieram: atendente de loja de roupas, auxiliar em uma fábrica de móveis e artesanato com cordas, outra marcenaria, auxiliar de estampador em uma serigrafia e balconista em um supermercado. Tudo isso em apenas quatro anos!

Ao trabalhar no supermercado, percebi que se eu quisesse melhorar de vida, era necessário terminar os estudos e, então aos 21 anos, voltei a estudar através de um curso supletivo. Como já estava casado e já tinha uma filha, parei e recomecei aos 26 anos.

          Nesse ínterim, também comecei a estudar música, pois tocava de “ouvido” e com isso comecei a sonhar com uma carreira musical. Deixei o emprego no supermercado e fui viver de aulas de música. Enquanto lecionava, também estudava teoria musical, violão, teclado, harmonia funcional e cursos afins. Isto durou uns nove anos seguidos. Neste período conciliei a música com a administração de um estacionamento, vendas e outras atividades que me ajudavam a complementar a renda.

          Nesta época algo mudaria vertiginosamente a minha vida; veio-me o chamado para o ministério pastoral. Terminei o Ensino Médio, fiz um curso Médio em Teologia e percebendo que precisava me preparar ainda melhor, em 2002 concluí a Faculdade de Teologia. Em meio a isto tudo, também tive a experiência de plantar uma igreja em um bairro da minha cidade e estive a frente desta igreja por três anos e meio. Comecei a sonhar com um ministério profícuo e em tempo integral e aos poucos as circunstâncias foram me levando a deixar a música.

          Em 2004 fui com a minha família - esposa, uma filha de 12 anos e dois meninos, um de 10 e outro de 7 anos – para a região amazônica plantar uma igreja e lecionar em um Centro de Treinamento Ministerial. Após dois anos, Retornei para Teresópolis, minha cidade natal e depois fui pastorear uma igreja em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.
          Há cerca de um ano e meio atrás, deixei o pastorado desta igreja e naquele momento percebi que mesmo tendo passado por tantos empregos e experiências não estava preparado para o mercado de trabalho.
          Hoje, aos 43 anos estou me perguntando: O que eu quero ser antes de envelhecer?

Pela manhã um amigo me perguntou:

- Você não pensa em retornar a pastorear em tempo integral?

       Respondi-lhe que penso sim, mas na realidade as circunstâncias me levaram a parar para pensar um pouco na vida e estou buscando ouvir de Deus o que Ele quer que eu seja antes de envelhecer.
     Estou no momento trabalhando com Telecomunicações e me inscrevi para um curso técnico na área para me preparar melhor. Ontem, fiz a minha inscrição no vestibular de uma universidade pública para cursar história à distância.
          Você deve estar se perguntando: Por que cursos em áreas tão distantes, tão diferentes? Pois bem. Só terminarei o curso de história dentro de quatro anos e até lá preciso atuar em alguma área, e isto faz parte de um sonho, de um projeto, pois não parei de sonhar.
Você sabe a diferença entre desejos e sonhos? Desejos são planos que nos vem à mente em determinado momento, mas que nos esquecemos deles ou não movemos nenhum só dedo para alcançá-los. Sonhos por sua vez, são projetos de vida.
          Ao longo da vida percebi que nunca tivera projetos de vida e tive muitos desejos. Deus me guiou por caminhos certos mesmo que eu não os planejasse, pois errei muitíssimo em muitas decisões e atitudes, contudo tive alguns acertos.
          De uma coisa eu sei; não vou para de sonhar, pois a vida não termina quando se morre, mas quando se para de sonhar.
No momento “estou” técnico em telecomunicações, mas sei que sou um pastor-mestre e um mestre-pastor e continuo sonhando.
E você, o que quer ser antes de envelhecer? Você tem sonhos ou desejos? Será que você não está morto por ter parado de sonhar?
Pense nisto.

         30 de outubro de 2012 ás 12:50 h - Humaitá, Rio de Janeiro, sentado no banco de uma praça à espera de um atendimento.

         Pr Valdecy de Jesus Marques

sábado, 4 de agosto de 2012

PLANTAÇÃO DE IGREJAS E "O MITO DA CAVERNA"



Para aqueles que se ligam em missões e evangelismo, a expressão “Plantar igrejas” é algo comum, no entanto, para a grande maioria dos crentes, essa é uma expressão nova e soa como mais um modismo dos nossos tempos. Até mesmo a maioria dos pastores não tem a real compreensão do que o termo abrange e toda a “teologia”, “filosofia” ou “modus operandi” a respeito do que realmente significa plantar igrejas.
         Para alguns seria um nome mais chique para algo que nossos predecessores fizeram: abrir novas congregações. Entretanto, plantar igrejas é mais que abrir novas congregações.
         Já tive a experiência de começar duas igrejas e sei que não é fácil, pois o plantador nem sempre dispõe dos recursos necessários para tal empreendimento e creio que o principal problema na realidade é a falta de preparo específico oferecido ao plantador. Os nossos predecessores nos ensinaram a alugar pequenos salões, ir para as ruas e praças distribuindo folhetos e convidando as pessoas para os cultos e por fim contar com a bondade de Deus a fim de que Ele envie as pessoas para as nossas reuniões. Muitas igrejas começaram à partir de famílias que se mudaram de cidade e por não haver nenhuma igreja de sua denominação lá, resolveram começar reuniões caseiras que mais tarde se transformaram em congregações e por fim em igrejas organizadas. Plantar igrejas é mais do que isto. Pouco ou quase planejamento algum há por parte das igrejas e de nossas lideranças para que igrejas sejam plantadas.

POR QUE “PLANTAÇÃO DE IGREJAS” E O “MITO DA CAVERNA”?

         Dentre muitas coisas que o filósofo Platão escreveu, “O Mito da Caverna” é uma das coisas que mais gosto. Não vou entrar nos pormenores, vou resumir para que você entenda porque estou associando este assunto ao plantio de igrejas.
         Platão nos faz imaginar uma caverna onde há pessoas acorrentadas onde há somente um feixe de luz. Geração após geração as pessoas encontram-se ali de costas para a entrada vendo apenas as sombras do mundo exterior que penetram devido ao pequeno feixe de luz. Um dia alguém conseguiu romper as barreiras e saiu para o mundo exterior. No início a luz do sol ofuscou-lhe o olhar, contudo a vontade de saber o que há do lado de fora o faz resistir ao incômodo e pouco depois ele começa a ver como o mundo real é belo e como ele realmente é. Com o tempo ele retorna para contar aos demais o que viu. Alguns não acreditam nele e tentam até matá-lo, outros até tentam sair, mas não resistem à luz do sol e retornam.
         Falo isto com muito tremor e temor: esta é a situação do cristianismo hoje. As gerações de líderes que nos precederam nos fizeram viver acorrentados em uma caverna sem enxergar o verdadeiro cristianismo bíblico. Quando alguém consegue sair da “caverna” e compreende o evangelho como ele realmente é, e então resolve levar os demais a ver “o mundo lá fora”, não é compreendido, é chamado de louco e até de herege.
         Infelizmente, mesmo que as pessoas queiram se basear na Bíblia, o seu pragmatismo e interpretação serão sempre realizados através das lentes da tradição. Criamos muitos sofismas teológicos, eclesiológicos, eclesiásticos e estruturais que nos fazem entender a Bíblia não como ela é, mas sempre dentro do que aprendemos por anos a fio.  A nossa liturgia, a nossa estrutura eclesiástica, o nosso sistema de educação, o nosso modelo de discipulado e pastoreio e muita coisa mais são praticados mediante as sombras que estamos vendo no fundo da caverna e infelizmente insistimos em não querer ouvir aqueles que conseguem ver o mundo lá fora.

Plantação de “cavernas”

         É duro o que vou dizer, mas infelizmente estamos na realidade reproduzindo modelos em série das nossas “cavernas” ao contrário de plantar igrejas baseadas em princípios bíblicos. Quando os “modernos” métodos de plantação de igrejas são apresentados, isto é algo surreal para a nossa liderança e principalmente para os nossos pastores. Quase 100 % dos nossos seminários teológicos não têm uma disciplina que aborde o assunto de maneira satisfatória, quiçá treinamento e estágio específicos nesta área. O resultado são cópias fidedignas das nossas avelhantadas estruturas que infelizmente não tem causado impacto ou feito diferença alguma. O mais trágico é que queremos também reproduzir as nossas “cavernas” nos campos missionários. Temos tido dificuldade em plantar igrejas fora do Brasil porque queremos levar para além-mar o nosso ultrapassado modelo tupiniquim.

NÃO HÁ MULTIPLICAÇÃO DE IGREJAS SEM MULTIPLICAÇÃO DE VIDAS

         O grande problema é que pensamos sempre em reproduzir prédios e estruturas, sem levar em consideração que a Igreja de Jesus é formada por pessoas e uma igreja local deve ser o reflexo desta. O próprio Jesus não multiplicou prédios nem estruturas. Jesus não tinha um prédio onde concentrava os seus esforços. Ele andava com os discípulos por toda a parte no meio das pessoas que queria alcançar. Jesus lidava direto com as pessoas e treinou um pequeno grupo ensinando-os a se multiplicar em outras vidas.
         Da mesma forma, o apóstolo Paulo não deixou prédios, catedrais suntuosas, ou nem mesmo um influente seminário para formar seus líderes. Ele se “reproduziu” em pessoas que se reproduziram em outras pessoas. Veja o que ele disse ao seu discípulo Timóteo:

“E o que você aprendeu comigo, transmite a homens fiéis e capazes, para que estes também ensinem a outras pessoas” 2Tm 2.2 (tradução livre).


Não creio em multiplicação de igrejas sem que haja “partos espirituais”

         O maior plantador de igreja da história se baseou em gerar vidas e não em multiplicar estruturas.
         O nosso problema é que não aprendemos a gerar vidas. A tradição nos ensinou a ter como Padrão os três mil que se converteram no pentecostes e os cinco mil que se converteram posteriormente, contudo este não é o padrão neo-testamentário para o crescimento da igreja. O padrão e o normativo é o texto de At 2.47, que diz que a cada dia o Senhor ia acrescentando os que iam sendo salvos. Aliado a este texto temos o texto de Gl 4.19 onde Paulo diz que estava disposto a sofrer dores de parto novamente até que os discípulos da Galácia chegassem à maturidade:

Meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós;”

Observe o ministério de Paulo e você verá que ele gerou vidas através da oração e intercessão, através do seu companheirismo e amizade, através do amor e do treinamento. Em vários momentos Paulo se considera “Pai” daqueles a quem ganhou e treinou, veja 1 Ts 2.11-12, 1Co 4.15
         O normativo não é vermos Paulo ganhando pessoas em massa, mas investindo em pessoas, uma a uma. Observe a despedida dele no final da carta ao Romanos e perceba as pessoas que ele cita pelos nomes e a intimidade que ele tinha com eles.
         Há um momento em que paulo compara o seu cuidado com os tessalonicenses ao cuidado que uma mãe dá a seus filhos:

Fomos bondosos quando estávamos entre vocês, como uma mãe que cuida de seus próprios filhos. sentindo, assim, tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós. (1Ts 2.7-8)

         O que estou falando é que a igreja precisa aprender que conversões devem ser resultado de “partos da alma” ou “partos espirituais”. O que é isso? Não é nenhuma heresia! A igreja precisa a semelhança dos apóstolos aprender a gerar vidas em seus úteros espirituais. Precisamos aprender a ganhar e cuidar daquelas pessoas que precisam conhecer a Cristo. Conversões em massa não é o padrão bíblico e infelizmente é isto que a igreja tem buscado. O verdadeiro crescimento da igreja só se dará quando as pessoas aprenderem a gerar novas vidas, quando elas prenderem que conversão é resultado de multiplicação. Quando uma pessoa ganha alguém para Cristo através da oração, da batalha espiritual, da amizade e de outros fatores ela automaticamente cuidará para que o recém convertido seja cuidado. Precisamos aprender muito sobre “Paternidade Espiritual”. Multiplicação de igreja demanda o entendimento do que é paternidade espiritual.
         Há igrejas que por terem um enorme poder na mídia abrem novos templos e em pouco tempo conseguem apinhá-los de gente, contudo vá e observe que na realidade são pessoas que já passaram por outras igrejas e estão lá agora atraídas por milagres e outra beneficies oferecidas. Plantar igrejas é mais que inaugurar novos locais de reunião. Aliás, há no mundo um tremendo movimento de plantação de igrejas onde templos só são erguidos ou alugados quando se faz necessário, pois o prioritário são os relacionamentos.

A IGREJA PRECISA DE CURA: um organismo estéril e doente vai gerar organismos estéreis e doentes

         Não podemos falar de plantar igrejas sem antes levar as nossas igrejas a um processo de cura. E o mais duro de admitir é que a cura deve começar pela nossa liderança. Há pastores precisando de cura interior e de libertação. Boa parte dos nossos pastores estão feridos, magoados, doentes e presos em amarras do diabo. O índice de pastores viciados em internet e pornografia é altíssimo. Entre nas redes sociais pelas madrugadas e você verá que a nossa liderança está por lá todos os dias. Não é à toa que a média de oração dos pastores brasileiros é de menos de 20 minutos por dia!
         Preste atenção! Não estou falando da invisível Igreja de Cristo. Esta é santa e imaculada. Estou falando das igrejas locais que estão doentes e são um corpo disforme e muito diferente do que é o modelo bíblico.
         Concordo com todo o esforço empreendido em ensinar os pastores a plantar igrejas, mas temo que  comecemos a multiplicar “cavernas” e estruturas disfuncionais. Aqueles que estão empenhados nesta missão estão buscando tirar as pessoas das  cavernas. Fico com as palavras do Pr. Davi Ramirez no seminário para capacitação de liderança. Em uma paráfrase do que ele disse, evidencio que precisamos destruir as nossas estruturas a fim de erguermos estruturas que sejam bíblicas e contemporâneas. A tentativa de plantar igrejas seguindo o modelo de estrutura que temos não nos levará a grandes resultados. O nosso tradicionalismo – apego demasiado as nossas tradições – Está nos impedindo de pôr em prática aquilo que aprendemos em seminários de capacitação de líderes, seminários para plantação de igrejas, no Instituto Haggai, nas reciclagens ministeriais e outros eventos.

Oremos para que o Senhor nos ajude a ver a igreja com os olhos d’Ele e não com os nossos, ou sob a perspectiva do tradicionalismo. Com

Texto escrito com humildade e com temor por alguém que tem se esforçado para sair da caverna, que sabe que precisa aprender muita coisa ainda e que quer ver a IDB despontar-se como uma tremenda potência neste Brasil e no mundo

                                                        Valdecy de Jesus Marques


terça-feira, 17 de julho de 2012

PARADIGDEMAIS




Calma! Esta palavra não está grafada erroneamente! Se é que posso assim dizer, criei um “trocadilho contraído”. Quero escrever e dizer que como cristãos temos hoje em dia “PARADIGMAS DEMAIS”. Estamos a cada dia perdendo a nossa identidade por falta de referenciais bíblicos, pois os paradigmas dos quais dispomos para nos espelhar estão afastados das Escrituras Sagradas.
Paradigmas são modelos, padrões, normas, amostras, protótipos nos quais baseamos o nosso pragmatismo, as nossas práticas, o nosso “modus operandi” de viver, em fim a nossa vida. Os nossos pais, os nossos líderes, e a nossa cultura nos impõem e nos transmitem paradigmas. Não há como fugir deles. Eles estão por todos os âmbitos e facetas da vida e do cotidiano. Não dá para dizer que não seguimos nenhum paradigma porque sempre nos espelharemos em algo em todo o curso de nossa vida. Paradigmas são necessários porque ajudam-nos a nortear a caminhada.
          Temos paradigmas que norteiam nossas famílias, negócios, finanças, política, economia, estudos e as nossas igrejas. E no meio evangélico então, o que não falta são paradigmas. A grande questão é que fico meio preocupado com estes modelos em demasia porque a cada dia nos distanciamos mais e mais de um cristianismo bíblico e relevante devido ao fato de que os paradigmas podem criar sofismas. Sofismas são mentiras que parecem verdade; é o falso soando como verdadeiro, é o pirateado barato que se torna estereótipo do original e valioso.
Estou me referindo as nossas estruturas de igrejas. Aos modelos que herdamos e que criamos para “ser igreja” hoje. Os nossos modelos tem nos levado a viver um cristianismo pirateado, uma cópia muito ruim do verdadeiro cristianismo. Costumo dizer que é como se o que vemos hoje é a cópia da cópia, da cópia... Quando vamos reproduzindo um documento a partir das novas cópias vamos perdendo a clareza do original. Imagine uma bonita foto de uma linda paisagem. Se formos copiando e copiando e... O que resultará será uma imagem muito distorcida e diferente da imagem original. Foi isto que aconteceu com a igreja. A imagem que nos passaram não é a imagem original e todos pensam que é. Sabe o que é interessante? É que resolvemos guardar o original na gaveta! Não perdemos o original! Ainda o temos! Ele está ali bem pertinho de nós. Só que quando olhamos para ele tentamos adaptá-lo à nossa cópia barata. Ao invés de pegarmos a nossa cópia e tentarmos aprimorá-la para que fique igual ao original ou até mesmo descartar a cópia. Pegamos o original e o moldamos à nossa cópia. Estamos tentando moldar a Bíblia às nossas tradições, aos nossos paradigmas, aos nossos modelos aprendidos com os nossos predecessores. Vou contar um pouco da minha história para exemplificar o que quero compartilhar neste artigo.
Pus-me a pensar há pouco tempo que anos atrás tomei uma decisão da qual sou cobrado hoje. Parei de estudar aos quinze anos e retornei aos estudos aos vinte e seis anos depois de perceber que sem estudo não poderia me qualificar para o mercado de trabalho. Na época em que percebi que precisava estudar senti o chamado para o ministério pastoral e comecei a fazer um curso básico de teologia. Ao terminar o ensino médio, percebi que o curso básico que havia feito era básico mesmo! E resolvi fazer o bacharel. Já estava tendo a minha primeira experiência pastoreando uma congregação que eu e minha esposa plantamos no bairro onde morávamos e no meio do curso percebi que o bacharel também não me capacitaria completamente para exercer o ministério pastoral, pois há algumas lacunas na grade curricular. Terminei o bacharel sim, mas em meio aos estudos segui por outro viés a fim de me preparar para o ministério pastoral. Não que a teologia não seja necessária. Não é isto que estou dizendo. Para a prática ministerial resolvi estudar modelos de igrejas, discipulado, pequenos grupos e a vida de lideres de influência no meio evangélico a fim de aprender com quem já tinha experiência. Passei a última década de minha vida me preparando para o ministério pastoral e hoje, havendo a necessidade de fazer outra coisa, ou seja, de trabalhar secularmente, não tenho nenhuma capacitação específica. Investi os meus recursos, o meu tempo, as minhas convicções no meu chamado. Envolvi a minha família e outras coisas nisto tudo porque acredito que precisamos oferecer as pessoas um cristianismo genuíno, do contrário, daremos conta do evangelho que temos pregado.
Em minha busca por paradigmas, por modelos e por um evangelho bíblico estudei as mais variadas idéias: Igreja em células, MCI – Movimento para o crescimento de igrejas, Igreja com propósitos, meta-igreja, redes ministeriais, Desenvolvimento natural da Igreja. Analisei as experiências de pessoas como Paul (David) Young Cho, Ralph Neigbour, Juan Carlos Ortiz e outros. Li muitos livros, participei de muitas palestras, fiz muitos cursos, analisei o crescimento de igrejas como a Batista da Lagoinha, a Igreja Central do Evangelho Pleno em Seul, na Coréia do Sul e outras e, no fim, ainda assim percebi que voltar as Escrituras não é fácil por causa da estrutura que herdamos que sempre nos empurra para um cristianismo mais cômodo, consumista, legalista e distante do plano original de Jesus para a sua Igreja.

Dois patins diferentes

          Percebo que somos levados a optar pelo velho ou pelo antigo. Talvez você pergunte; E o novo? O novo só vai fazer diferença se fizermos a opção correta. O antigo é o bíblico; o velho são as nossas tradições e estruturas, os nossos velhos paradigmas. É como se tivéssemos um par de patins, mas em cada pé um modelo diferente do outro. Um é daqueles antigos, de rodinha; o outro é daqueles de gelo que possui uma lâmina embaixo que desliza no gelo. Não dá para pôr os dois no solo ao mesmo tempo. Não haverá harmonia e com certeza vamos cair. Temos que escolher entre patinar com o pé direito e utilizar o esquerdo para a propulsão ou o contrário. A maioria dos pastores prefere pôr o pé esquerdo e empurrar com o direito, ou seja; se apoiam no velho, nas tradições, nas velhas estruturas e utilizam a Bíblia (o pé direito) para dar propulsão. Temos que inverter. Se apoiar no antigo (princípios bíblicos) e aí sim utilizar os nossos paradigmas para ajudar na propulsão. E isso se estes paradigmas forem bons. Talvez nem precisemos, pois o modelo bíblico possui motor! E o patim vai andar sozinho! O combustível é a unção do Espírito Santo. Quando ele quer, ele utiliza as inovações e as nossas estruturas. O ideal mesmo é que usemos um par de patins iguais. Só que é tão difícil fazer a troca!

A igreja que você sempre quis

  Há pouco tempo estava em uma livraria evangélica observando lançamentos de livros e me deparei com um livro chamado “A Igreja que você sempre quis”. Comprei sem analisar o índice e imaginei que o livro trataria de princípios bíblicos para um ministério pastoral relevante. No início até gostei da frase que diz que “a prova da insanidade é fazer sempre as mesmas coisas e esperar resultados diferentes”. Há pastores que estão fazendo isto a vida inteira. Chamo estes pastores de “repetidores”. Há pastores que são repetidores de paradigmas. Os paradigmas se tornaram mais importantes que as Escrituras. No meio do livro percebi que era mais uma tentativa de aplicar a Bíblia as nossas estruturas e não o contrário. Mas a leitura me fez pensar em algo interessante: Como é a igreja que você sempre quis? Como é a igreja que as pessoas querem? Pergunte-se a si mesmo. Já percebeu que esta rotatividade em nossas igrejas se dá por causa disso? O indivíduo hoje está aqui, amanhã está ali, e depois de amanhã está acolá. Depois volta para cá e assim vai. Parei para pensar que na maior parte dos casos os pastores e as igrejas visualizam uma igreja não como Jesus espera que queiramos, mas do jeito ou da maneira que elas querem porque os seus paradigmas os empurram para esta decisão.
          Como é a igreja que eu sempre quis? Há cinco anos eu pensava de uma forma, hoje penso de outra. Daqui a algum tempo com certeza pensarei diferente, pois a cada dia vou amadurecendo e descobrindo princípios bíblicos diferentes e a cada dia o Espírito Santo age de maneira diferente e precisamos seguir o vento do Espírito. Precisamos ser odres novos para que recebamos o vinho novo. Se continuarmos com as nossas velhas estruturas (odres velhos) o Senhor não enviará o Vinho novo. Na antiguidade o vinho tinha que ser removido de vasilha (odre) constantemente se não, ele repousaria no que eles chamavam de “fezes do vinho”, que eram resíduos do vinho que se instalavam no fundo do odre e comprometiam o sabor, o cheiro e a cor do vinho e este não valia para mais nada.

“Despreocupado esteve Moabe desde a sua mocidade e tem repousado nas fezes do seu vinho; não foi mudado de vasilha para vasilha, nem foi para o cativeiro; por isso, conservou o seu sabor, e o seu aroma não se alterou.” (Jr 48:11).

          A igreja está como Moabe, está assentada sobre as fezes do seu vinho. Elas receberam vinho novo há anos atrás, mas quiseram continuar guardando-o no mesmo odre e o vinho se estragou! Há denominações que nasceram debaixo do mover de Deus. Há igrejas que foram pioneiras de avivamentos que marcaram a sua geração, mas que encaixotaram o mover de Deus com suas estruturas, com seus odres que envelheceram e hoje estão repartindo um fétido e amargo vinho estragado que chamam de evangelho. Será que esta não é a situação de sua igreja ou denominação?
Tive uma experiência de pastoreio onde percebi que a Igreja que eu sempre quis não era a igreja que os crentes daquela congregação local queriam. Eu poderia decidir patinar com o pé esquerdo e propulsioná-lo com o direito, mas não o fiz. Alguns o fazem e conseguem apenas manter a estrutura funcionando, entretanto eu espero mais que manter as estruturas. Há pouco tempo conversando com um pastor a respeito de sua igreja perguntei-lhe como as coisas estavam e ele me disse muito satisfeito:

- Está tudo muito bem! Estou lá há dez anos, a igreja paga as contas. Não sobra nada, mas também não devemos nada. Como eu tenho o meu emprego a igreja não precisa assalariar um pastor. São 40 membros. Já tivemos cinquenta, mas hoje somos apenas quarenta.

Perguntei-lhe:

- Quantos anos tem a igreja?
- Vinte anos!

Não é isso que o Senhor espera de nós pastores com certeza. Não é isto que eu espero do meu ministério. Não estou dando ênfase a números, mas uma igreja sadia em vinte anos se reproduzirá e chegará a uma marca maior do que quarenta membros. Estas coisas só acontecem quando decidimos patinar com o pé esquerdo. Na realidade percebo que nosso trabalho consiste mais em manter a igreja funcionando do que realmente crescer em todas as direções porque deixar uma congregação fechar seria algo vergonhoso para a nossa história e reputação.
          Às vezes acho que as pessoas me veem como uma ameaça à ortodoxia quando começo a falar sobre voltar ao antigo e abandonar o velho. Eu entendo que é difícil abandonar o velho, só que há um problema; o antigo se renova, o velho se mantém. Temos que escolher entre uma estrutura que se renove através do agir do Espírito Santo ou uma estrutura que se mantém através dos anos pela misericórdia de Deus. Se resolvermos mudar o Senhor enviará o novo, se continuarmos como estamos o Senhor terá misericórdia de nós. Há muitos homens e igrejas inventando coisas novas, práticas novas, liturgias novas, mas Vinho novo só Deus pode enviar e Ele só enviará se os odres forem novos.
Vivemos hoje o fenômeno das chamadas “portinhas” de igreja. Aqui na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, há locais onde em um imenso quarteirão encontramos vinte, trinta ou quarenta igrejinhas. Sabe por que isto acontece? Porque as pessoas saem das igrejas maiores para viver o sonho de montar a “igreja que sempre quis”, o resultado é este emaranhado de portinhas e de estereótipos de igreja que vemos hoje. E vamos ser sinceros, há algumas coisas muito estranhas por aí que nem podemos chamar de igreja! Voltamos aos paradigmas. Cada pessoa sonha com uma igreja baseada em seus paradigmas.

A igreja como um organismo que se reproduz

Um livro que me fez repensar seriamente sobre modelos chama-se “Igreja Orgânica”. Este livro é simplesmente prefaciado por ninguém menos que Israel Belo de Azevedo, reitor do Seminário Batista do Sul, a maior instituição evangélica de ensino teológico da América latina. Fiquei estupefato ao ver um Batista da envergadura dele prefaciar uma obra como esta que foge completamente a estrutura batista brasileira. Recomendo a leitura deste livro àqueles que querem compreender mais sobre estrutura bíblica de igreja. Sei que o livro é muito questionado e é claro que deve ser, pois foge aos nossos paradigmas históricos, mas é uma leitura que vale a pena. E também não estou dizendo que você tem que concordar com tudo o que lá está escrito.
          Neil Cole, o autor fala-nos a respeito da igreja como organismo e defende que se a igreja é um organismo e não uma organização ela deve possuir um DNA, um código genético que garanta que ela se reproduza saudavelmente.
          Neil Cole e outros parceiros, através de intensa análise bíblica chegou à conclusão de que o DNA da Igreja se resume em três fatores fundamentais:

D – Divina Verdade
N – Nutrição de Relacionamentos
A – Apostolicidade da Missão

Deixe-me explicar isto melhor. A nossa estrutura deve preservar e valorizar três coisas principais:

1. A verdade divina - O genuíno evangelho que é mais do que conceitos frios, mais do que pregações e estudos, mais do que um livro de capa preta que levamos para o templo aos domingos. A verdade é o próprio Jesus dentro de nós. Quando vivemos e pregamos Jesus, a verdade está em nós. Até um analfabeto entende e tem a vida mudada. Até o homem mais letrado se rende a esta simples mensagem se abrir o coração para entendê-la. Trocamos a antiga exposição bíblica por oratórias de autoajuda, de vitória, que focalizam a bênção e não o abençoador. Sei que há exceções, mas as nossas Escolas Bíblicas Dominicais estão longe de levar as pessoas a viverem um cristianismo relevante. As pessoas passam anos e anos em uma EBD e não praticam as coisas mais simples da fé. Temos passado muita informação, mas ensinado pouca prática de vida diária como resultado de constante comunhão com o Senhor através da palavra.

2. Relacionamentos Sempre digo que se subtrairmos os relacionamentos do cristianismo o que sobra são reuniões frias, músicas que não fazem sentido algum, ensaios, cultos e muitas coisas que não mudam em nada a vida das pessoas. A base do cristianismo são os relacionamentos. A igreja primitiva iniciou as suas atividades priorizando relacionamentos e isto era levado tão a sério que eles repartiam tudo entre si para que ninguém tivesse necessidade alguma. Todos os dias eles se reuniam à mesa para refeição e oração. O culto da igreja primitiva resumia-se em três coisas básicas: oração, ensino e comunhão à mesa todos os dias. Nossos cultos estão longe desta estrutura. Se tivéssemos as nossas inovações, mas em meio a um ambiente como o citado acima estaríamos bem próximos, entretanto os nossos cultos estão mais para entretenimento, show e reuniões de autoajuda. Trocamos os relacionamentos por programações e a cada dia precisamos inventar programações mais atrativas.

3. Missão Se vivermos um evangelho genuíno (verdade divina). Se Vivermos relacionamentos profundos, verdadeiros e relevantes seremos compelidos a nossa missão como igreja. A igreja tem ensinado pouco a respeito da responsabilidade evangelística que cada cristão tem. Levar a verdade divina a outras pessoas não é responsabilidade de uns poucos, mas de todo cristão. Poucas pessoas compartilham a fé em Jesus com outras pessoas no dia-a-dia. Não há estímulo para isto e muito menos uma estrutura que propicie esta prática, pois resumimos o nosso cristianismo aos nossos cultos de domingo à noite onde cantamos, dizimamos, ofertamos, recebemos uma oração “abençoando” a nossa semana para que sejamos vitoriosos e depois retornamos para as nossas casas para recomeçar a semana novamente.
Entenda uma coisa. Não sou contra conjuntos, duetos, coreografias, EBD, departamentos e tudo o mais que praticamos hoje. Em momento algum estou propondo que a Igreja de Deus precisa abandonar o seu legado de 125 anos de história. O que estou afirmando é que alguns paradigmas nos distanciaram da estrutura de igreja que a Bíblia nos apresenta. Estas coisas teriam valor se nos levassem a praticar o que Neil Cole nos apresenta como o DNA da igreja. As nossas estruturas precisam nos levar a viver a verdade, relacionamentos profundos e missão relevante. Mas, ao contrário tem nos afastado do DNA. E sabe o que é triste? É que as pessoas não se dão conta disso porque o modelo de igreja que aprendemos com a tradição nos ensinou a fazer as coisas sempre de uma mesma forma. Para a gente o anormal virou normal. No DNA humano nada pode ser tirado ou acrescentado, se não, teremos um ser anômalo. As pessoas que tem síndrome de DOWN tem uma espécie de pequena alteração genética e por isso elas são diferentes. Não estou dizendo que estas pessoas são anormais, estou alertando para a alteração do DNA. O que percebemos hoje na igreja é que por alterarmos profundamente o seu DNA encontramos igrejas atípicas, doentes, estéreis, anômalas.
Neil Cole lidera uma agência de plantação de igrejas que iniciou mais de 700 igrejas em 32 estados dos Estados Unidos e em 23 países em seis anos. Essas igrejas são chamadas de igrejas simples. Eles funcionam em casas, garagens, galpões, salões de empresas e até mesmo em lanchonetes. São igrejas formadas por Três a quatro famílias, às vezes bem mais, entretanto elas começam pequenas, com duas ou três pessoas que querem compartilhar a fé em Jesus com seus parentes e amigos. Não estou dizendo que devemos adotar este modelo. Estou mostrando que enquanto pensamos se devemos ou não alterar a nossa liturgia e estruturas há pessoas que entenderam a simplicidade da fé e tem alcançado muito mais pessoas do que nós com a nossa “ortodoxia” e “sã” doutrina que tentamos preservar.
Há um fato que deixa os estudiosos intrigados. “Quando o comunismo tomou conta da China e iniciou-se o período chamado de “cortina de ferro”, havia na China um pouco mais de um milhão de crentes. Durante muitos anos ninguém tinha a ideia de como os crentes lá estavam se comportando. Templos foram queimados e destruídos, pastores eram obrigados a delatar os seus membros, muita gente morreu pelo testemunho de Cristo. Achava-se que não se encontraria mais nenhum crente lá e, para surpresa de todos, quando o país começou a se abrir, havia cerca de cinquenta milhões de crentes! O que aconteceu? As pessoas se reuniam em pequenos grupos às escondidas e levavam os seus parentes e amigos mais próximos para as reuniões. Naquele período da igreja chinesa, e ainda hoje acontece, era impossível realizar programações, as reuniões eram simples, destinadas somente à oração, meditação bíblica e o compartilhar e a história nos mostra os resultados.”. (O Ciclo Vital da Vida espiritual – Pr. Valdecy de Jesus Marques, pág 114)

Temos notícias de que em meio ao comunismo e a perseguição na China, há uma igreja vívida e crescente no interior do país. Há meninas adolescentes de 15 e 16 anos que pastoreiam duas a três igrejas devido à falta de obreiros. Há poucos lugares no mundo onde a igreja tem tido mais avanço do que naquela região. Analisando estes fatos me sinto envergonhado ao constatar o quão pouco tenho produzido nos últimos anos.
O bom é que nem tudo está perdido. A situação não é tão degradante como alguns fazem parecer porque há pastores e pastoras que tem ousado romper com os paradigmas. Há pessoas bem próximas a nós que tem se disposto a pagar o preço para que as mudanças aconteçam. Voltar ao cristianismo bíblico é mais fácil do que muitos podem pensar. Basta uma total rendição ao Senhor. Basta sinceridade diante de Deus para que vivamos os sonhos dele e não os nossos. Basta entregarmos de fato o controle da igreja ao Cabeça, a Jesus. Precisamos deixar Jesus realmente ser soberano em nossas vidas e não apenas uma figura decorativa. Precisamos ter a humildade de nos sentarmos aos pés daqueles que já descobriram este cristianismo bíblico para aprendermos com eles. É uma questão de conscientização e atitude.
Espero que a “vida” e Deus me deem a oportunidade de não apenas fazer diferença no mundo, mas de me doar para que as pessoas sejam diferentes, para que as igrejas sejam diferentes, para que as pessoas vivam um cristianismo diferente. Eu tenho empreendido a mina vida nisso e este é um caminho sem volta.

          Pr. Valdecy de Jesus Marques

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

IDENTIFICAÇÃO: o amor de Deus em ação

 Amor e atitudes – cruz e compromisso


            Nos últimos dois artigos falei sobre o amor que devemos nutrir por Deus. Falamos sobre ter um coração acelerado, arrebatado, apaixonado por Jesus. Entretanto, uma das grandes questões ao se falar sobre amor é que a maioria das pessoas faz uma leitura da palavra amor sempre no nível de sentimento ou emoção. Não é para menos, a TV, os livros e a nossa cultura nos fazem pensar desta forma. Contudo, o amor deve ser compreendido como atitudes muito mais do que sentimentos e emoções. Quando falo sobre o assunto e peço as pessoas para definirem a palavra amor as definições que escuto são “O sentimento mais profundo do ser”, ou “o maior de todos os sentimentos” e por aí vai.
            Quando falamos sobre amar ao Senhor somos levados automaticamente a pensar em um profundo sentimento por Deus, entretanto, como diz Richard Foster, “amamos a Deus amando ao nosso próximo, e podemos amar ao nosso próximo somente quando amamos a Deus. Os dois mandamentos formam uma túnica inteiriça”. Quando Jesus foi indagado acerca do principal mandamento Ele sabiamente disse que o segundo e também importante mandamento é amar ao próximo como a si mesmo. Jesus ainda disse que destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas. Os dois mandamentos se complementam; amar a Deus e amar ao próximo. Citando uma vez mais Richard Foster, “Quando tentamos amar a Deus sem amar ao nosso próximo, nos separamos da artéria pulmonar de Deus, portanto, se amarmos a Deus de todo coração alma, mente e força, seremos necessariamente atraídos ao amor ao próximo”. Dietrich Bonhoefer disse que “o amor humano deixado por conta própria ama os outros por amor a si mesmo. Enquanto que o amor ágape ama aos outros por amor a Deus.”
            Como já disse, o verdadeiro amor é demonstrado através de atitudes muito mais que através de sentimentos. Observe o que Jesus disse:


“ Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” (João 14:15) 


“ Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” (João 14:21) 

“ Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. “ Quem não me ama não guarda as minhas palavras; e a palavra que estais ouvindo não é minha, mas do Pai, que me enviou.” 
(João 14:23, 24)


A cruz de Cristo e a nossa cruz

            A guarda dos mandamentos está atrelada ao amor ao Senhor; se não for assim tudo será mero legalismo. Quando tentamos guardar os mandamentos sem amar ao Senhor, das duas coisas, uma; ou falharemos bem cedo ou estaremos fadados a mediocridade, a hipocrisia e ao legalismo.
            O amor gera obediência e compromisso. Se amarmos a Deus o obedeceremos. Esta santa obediência não é apenas “não mato”, “não roubo”, “não adultero”, ou, “não bebo”, “não fumo”, “não faço isso”, “não faço aquilo”. Tem muita gente que não faz nada disso, contudo não serve ao senhor. Quando o amamos de verdade, não praticamos nada disso porque não precisamos; temos um compromisso com Deus; Ele fez uma aliança conosco e o símbolo desta aliança é a cruz. A cruz de Cristo e a nossa cruz.
            Quando um casal se casa eles colocam um anel no dedo um do outro e o chamam de aliança. Uma aliança é um pacto de fidelidade. Quando Jesus morreu na cruz Ele fez uma aliança, um pacto conosco. Não podemos confundir a nossa cruz com a cruz de Cristo. A cruz de Cristo não foi apenas aquele pedaço de madeiro onde Ele foi crucificado; a cruz se tornou um símbolo de sua identificação com o nosso pecado. A crucificação de Cristo começou quando Ele se tornou homem e culminou no gólgota. Sua ressurreição é o símbolo da vitória! A páscoa a celebração desta vitória!
É necessário que entendamos uma coisa. Quando Jesus diz que quem quiser segui-lo precisa negar-se a si mesmo e tomar a cruz a cada dia, esta cruz que precisamos tomar não é a cruz de Cristo é a nossa cruz, ou seja, na aliança que Jesus fez conosco o compromisso dele foi viver no mundo e morrer por nós; o nosso compromisso é morrer para o mundo e viver para Ele! Esta é a cruz que temos que tomar a cada dia! O negar-se a si mesmo não é apenas negar os prazeres da carne como muitos logo pensam; é viver de acordo com sua vontade. Todos os nossos planos, sonhos, projetos e toda a nossa vida estão submetidos à vontade dele, pois Ele sabe o que é melhor para nós.
Ele nos ajuda a tomar as decisões mais acertadas, entretanto este compromisso de fidelidade envolve um mistério público. Da mesma forma que Deus enviou Jesus ao mundo para salvar o mundo, Jesus nos envia ao mundo como seus representantes. Nossa missão deriva da missão de Cristo. Esta parte da aliança é inevitável, inadiável e obrigatória. Se de fato amamos a Jesus, amaremos também as pessoas por quem Ele morreu! A exemplo de Cristo precisamos nos identificar com as pessoas.
Identificação: Amor ativo e amor passivo
Para você entender como os dois mandamentos se complementam, imagine que o amor tem um lado passivo e outro ativo.
Amor passivo: Recebemos o seu amor à No lado passivo recebemos de Deus o amor, o cuidado, o abraço, o carinho, o perdão dos pecados, a misericórdia, a graça e muito mais e assim nos sentimos amados.
Amor ativo: Propagamos o amor dele identificando-nos com o nosso próximo.

O que é identificação?

A semelhança de Jesus, precisamos nos identificar com as pessoas. Jesus se deu, se esvaziou dos poderes da divindade. Ele andou entre nós, foi a festas onde havia “pecadores”, caminhou quilômetros na companhia dos discípulos, entrou nas casas, estava freqüentemente no pátio do templo entre as pessoas comuns. Jesus andou de barco, montou num jumento, sentou-se a beira da praia para comer peixe e pão com os discípulos, dormiu no monte e fez muita coisa mais! Depois foi crucificado e morreu por nos amar!
Isso é identificação! Jesus se identificou conosco! É por isso que o texto áureo da Bíblia diz que “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Jesus nos amou de uma maneira tal que resolveu se tornar um de nós para nos salvar.

A identificação e o evangelismo

            Tenho falado e escrito sobre a necessidade da igreja chorar e prantear pelos perdidos. À semelhança do apóstolo Paulo, precisamos sentir dores de parto afim de que as pessoas nasçam espiritualmente, entretanto sei que isto não nos sobrevêm facilmente. É necessário que antes haja uma identificação com a pessoa a qual queremos interceder e levá-la a Cristo. Rees Howells, um Galês que ficou conhecido na história como “o intercessor”, foi levado pelo Espírito Santo a se identificar com as pessoas e numa época em que estava intercedendo por um tuberculoso ele teve sintomas de tuberculose. Quando o tuberculoso ficou curado os sintomas desapareceram! Numa época em que estava evangelizando mendigos ele passou a usar roupas mais simples e era freqüentemente visto no meio deles ou os levava para sua casa. Ao evangelizar pessoas pobres ele passou a viver com duas refeições diárias até que todos fossem salvos. Sabe qual foi o resultado disso tudo? Ele levou todas estas pessoas a um relacionamento com Cristo!
            Quando falo que o evangelismo de cruzada, e as formas de evangelismo convencionais que utilizamos não trazem os resultados que esperamos muitas pessoas não me compreendem e acham que estou me opondo a elas. Entenda uma coisa; Precisamos evangelizar nas ruas, na TV, na internet, no templo e em todos os lugares e utilizando todos os meios possíveis. Entretanto bato numa tecla insistentemente e contra fatos não há argumentos. O modelo de evangelismo mais eficaz até hoje é o modelo deixado por Jesus; o evangelismo através dos relacionamentos.
Jesus pregou em meio às multidões, mas Ele não era um “pregador de porcelana” intocável e inacessível como muitos pregadores hoje são. Jesus se misturou com as pessoas. Ele adentrava em suas casas, conversava com elas, lhes aconselhava, dormia junto de seus discípulos, caminhava com eles, comia junto deles. Jesus se identificou com as pessoas; Jesus as amou! Que vergonha para alguns evangelistas modernos que andam com seguranças, entram e saem pelas portas dos fundos, exigem hotéis cinco estrelas e jatos de luxo e nem mesmo a esposa e os filhos às vezes têm acesso fácil a eles!
Costumo dizer que entregar folhetos, pregar nas praças, trens e metrô ou organizar campanhas e cruzadas evangelísticas é muito fácil e mesmo assim as pessoas não querem fazer! Difícil é identificar-se com as pessoas e é isto o que está faltando à igreja. A exemplo de Daniel precisamos pedir perdão a Deus pelos pecados do povo até que o povo possa pedir perdão por si mesmo. Leia Danie 9, mas antes veja aqui parte do texto:



“ Voltei o rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza. Orei ao SENHOR, meu Deus, confessei e disse: ah! Senhor! Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos; temos pecado e cometido iniquidades, procedemos perversamente e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos e dos teus juízos; e não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que em teu nome falaram aos nossos reis, nossos príncipes e nossos pais, como também a todo o povo da terra.” (Daniel 9:3-6)


Precisamos orar, jejuar, prantear e chorar pelos nossos parentes, amigos e irmãos que estão caminhando a passos largos para a perdição, mas infelizmente estamos muito ocupados com congressos, campanhas, shows, confraternizações, ensaios, cultos de departamentos, brigas, contendas, fofocas, e com a nossa vida de forma geral.
Criamos o nosso dialeto, as nossas roupas e a nossa cultura e isto criou um abismo quase intransponível entre nós e os perdidos. Eu disse quase intransponível, pois pela misericórdia de Deus muitas pessoas têm encontrado o caminho. As pessoas se convertem e a nossa estrutura e cultura fazem com que elas percam o contato com os descrentes e assim percam a possibilidade de levá-los a Cristo. Precisamos preparar os novos convertidos para que eles levem mais pessoas ao reconhecimento da soberania de Cristo, porque quanto mais uma pessoa caminha em direção ao serviço e a liderança em uma igreja mais ela perde o contato com os descrentes. O Instituto para Desenvolvimento Natural da Igreja realizou uma pesquisa que comprovou isto. Analise o gráfico ao lado e perceba que um pastor está no topo da pirâmide de contatos e conseqüentemente longe dos descrentes.
Constantemente ouvimos os pregadores dizendo-nos que precisamos ter compaixão pelos perdidos, mas como ter compaixão deles se a cada dia nos afastamos mais e mais? Como ter compaixão se ao contrário de Jesus estamos levando remédio para os sãos? Precisamos urgentemente rever o quanto amamos a Deus e rever também os nossos métodos evangelísticos
           
A identificação e o ministério cristão

            Até mesmo no dia-a-dia da igreja precisamos da identificação. Não há como exercer o ministério cristão com eficiência sem amor, se não, como já disse acima, isso também será um mero legalismo ou exerceremos apenas para nossa auto-realização.
             Querido pastor pregue se identificando com suas ovelhas. Busque de Deus em oração alimento para elas. Pare de dar capim seco a elas e água barrenta. Tire tempo suficiente para receber alimento fresco do céu para alimentá-las. Após receber de Deus a direção do que ensinar tire tempo suficiente para preparar uma mensagem que as pessoas compreendam e que as leve a reflexão profunda. Há pastores que pulam, gritam, suam, fazem as pessoas delirar em pura adrenalina e no final elas vão para casa e tudo não passou de emoção. Se perguntarmos no dia seguinte o que ele ensinou ninguém sabe e há alguns que dirão: “não me lembro do que ele falou, só sei que o fogo caiu!”. Você percebeu que falei sobre adrenalina? Pois é isso mesmo! Está comprovado cientificamente que os pregadores estimulam a adrenalina em seus ouvintes. Se a mensagem não tiver um importante conteúdo tudo não passará de emoção! Precisamos de pastores que domingo após domingo, culto após culto, mensagem após mensagem façam as pessoas pensar e mudar. Só pulos e gritaria não bastam. Aliás, os pastores precisam aprender a ensinar andando no meio do povo, convivendo com as pessoas. O verdadeiro pastor tem o cheiro das suas ovelhas!
            Cantores e ministério de música, cantem se colocando no lugar de seus ouvintes. Lembre-se que a sua música precisa vir direto do trono de Deus e alcançar o coração das pessoas. Cantem ou toquem seus instrumentos em atitude de serviço e intercessão para que cada nota, cada acorde, saia com uma unção tal que cure as pessoas física e espiritualmente e que a vida delas seja mudada. Não dá para continuarmos assistindo um show a cada culto ou então o oposto; pessoas totalmente despreparadas e uma música de péssima qualidade que mal passa do teto. Há ministérios de louvor que promovem palmas, gritos, danças, êxtase e muita, muita adrenalina menos mudança em seus ouvintes ou profunda adoração ao Senhor. Isso precisa mudar!
            Se sua igreja tem discipuladores pessoais esta palavra é para eles: vocês discipuladores, estão mais próximos dos membros do que qualquer outra pessoa; até mesmo do que o pastor! Identifiquem-se com seus discípulos. Discipulado é transferência de vida, não é apenas um repasse de informações ou de conceitos e doutrinas. Mais do que qualquer pessoa você precisa amar as pessoas. Quando ensino a líderes e pastores sobre discipulado “um a um” percebo pessoas “torcendo o nariz”, pois isto envolve tempo e nós não temos tempo para as pessoas, pois, vou repetir estamos muito ocupados com congressos, campanhas, shows, confraternizações, ensaios, cultos de departamentos, brigas, contendas, fofocas, e com a nossa vida de forma geral.
            Professor da EBD, recepcionista, líder de departamento, diácono, evangelista identifiquem-se procurem meios de se identificar com as pessoas através de suas funções.
            Leve este princípio para todas as esferas de relacionamento: Pai, mãe, aluno, patrão, empregado, chefe etc. identifiquem-se com as pessoas!
            Para encerrar quero dizer que podemos ser um canal ou então ser um lago. Um canal recebe a água, mas não pode usufruir dela, pois apesar de passar água em grande quantidade a água não pára. Já o lago recebe a água e a despeja por um canal. Ao observarmos um lago parece que as águas estão paradas, mas não estão. Há vida em seu interior. Há fluxo e refluxo. O lago recebe e dá. Não seja também como o mar morto que recebe as águas do Rio Jordão, mas não a despeja em lugar algum e por falta de refluxo e da grande quantidade de sal ali contido as águas são mortas. Não há peixes, não há plantas Não há vida!
            Precisamos receber o amor de Deus e precisamos amar as pessoas com o amor de Deus, se não, não haverá vida em nós. Precisamos ser como uma bateria que depois de descarregada precisa de recarga para receber mais energia. Cada momento que passamos em oração e meditação é importante para que carreguemos as nossas baterias com o amor e a unção de Deus.
       
                                                   Pr. Valdecy de Jesus Marques 

UM CORAÇÃO ARREBATADO E ACELERADO PELO SENHOR


Há pouco tempo enviei um e-mail para várias pessoas com o título “Amantes ou prostitutas” e recebi várias respostas de pessoas que foram impactadas pelo conteúdo. Alguns irmãos e pastores levaram o artigo para grupos de es tudo e outros o transformaram em pregação. Após tudo isto me coloquei a indagar sobre: o que é ser um amante de Deus? Lembre-se que esta palavra não está sendo utilizada aqui no sentido pejorativo como muitas pessoas a conhecem. Amante aqui denota alguém que nutre um bonito e profundo amor por alguém.
          De início fui logo levado a resposta que Jesus deu ao mestre da lei onde o Mestre dos mestres disse que o maior de todos os mandamentos é “Amar ao Senhor de todo coração, de toda alma, de todo o entendimento e toda a força.” Fui imediatamente ao texto de Mateus 22.37 e aos textos correlatos para fazer uma exegese a fim de entender melhor o que é amar ao Senhor com o coração, com a alma, com o entendimento e com a força.
          Para iniciar perceberemos que este texto é uma citação do texto hebraico de Dt 6:5 e a nossa análise léxico-sintática partirá deste texto. Nele Moisés fala de três coisas essenciais que caracterizam aqueles que amam ao senhor: Coração, alma e força.

Coração -- Alma -- Força

          Leia atentamente os textos abaixo e perceba que no Novo Testamento Jesus fez um adendo e incluiu a palavra “entendimento” após “Alma” e isto nos ajuda a entender o que o texto hebraico realmente quer dizer.

“ Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força.” (Deuteronômio 6:5 )

“ Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.”
                                                             (Mateus 22:37 )


“ Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força.”                                                                                     (Marcos 12:30)
Coração -- Emoção, sentimentos

          O termo hebraico é "lebab" e significa “Homem interior, mente, vontade, coração, alma, inteligência”. Tanto Coração quanto alma podem significar emoção ou sentimento dependendo da sintaxe de uma frase, mas neste texto alma toma um significado diferente de coração que aqui como já falamos, aponta para a emoção e os sentimentos. O termo vem da raiz "labab" e significa: “arrebatar o coração, encorajar, acelerar o coração”.

Alma -- Razão, entendimento, vontade.

          O termo no hebraico é "nephesh" que em primeiro plano significa alma, ser, vida, criatura, pessoa, mas neste versículo assume um significado bem comum ao seu uso no hebraico: “A Atividade da mente ou atividade da vontade”. Neste caso a palavra está se referindo as atividades mentais próprias do ser humano e não dos demais animais. A palavra alma tanto no texto de Mateus como no de Marcos é a tradução do termo psuche que se tomada isoladamente em sua raiz significa fôlego, respiração indicando sinais vitais de vida em um ser humano, mas que neste caso assume outras de suas aplicações muito comuns para os gregos e nos textos sagrados; alma aqui significa “toda a atividade da psique humana” e é vista como o “lugar dos sentimentos, desejos, afeições, aversões”.           A psique é a sede dos pensamentos o que faz com que o homem tenha a razão, diferentemente dos animais. Para reforçar esta verdade perceba que no Novo Testamento, quando Jesus foi indagado sobre qual seria o principal mandamento Ele acrescenta ou inclui a palavra “entendimento”. Esta palavra é a tradução do termo grego dianoia que é a junção dos radicais dia e nous e aponta para a mente como centro das habilidades intelectuais, afetivas e volitivas, faculdades mentais, entendimento. O termo “dianoia” aponta também para:
1. Razão no sentido mais estrito, como a capacidade para compreender a verdade espiritual, os poderes superiores da alma, a faculdade de perceber as coisas divinas, de reconhecer a bondade e de odiar o mal
2. Poder de ponderar e julgar sobriamente, calmamente e imparcialmente
3. Um modo particular de pensar e julgar, pensamentos, sentimentos, propósitos, desejos.


Força -- Intensidade

O termo no hebraico é "ma‘od" e significa: grande quantidade, extremamente, muito, força, abundância. São expressões idiomáticas mostrando magnitude ou grau.

Arrumando as informações obtidas

          Basicamente aprendemos que o texto hebraico nos mostra que devemos amar ao Senhor com as emoções e sentimentos, mas também com o entendimento e a razão e empregar muita intensidade. O interessante é que tudo isto me levou para outro assunto que é questionado por muitos: Podemos dizer que estamos apaixonados pelo Senhor? Paixão seria um termo apropriado para se referir ao nosso relacionamento com Deus? Vejamos:

Pode um crente estar apaixonado pelo Senhor?

          A palavra paixão vem do grego "pathos" que significa: Calamidade, infortúnio, mal, aflição e além de outros, doença. Por isso muitos questionam que se paixão é uma doença como poderemos utilizar o termo em relação ao nosso relacionamento com Deus? A grande questão é que não podemos utilizar um termo levando apenas em consideração o seu sentido etimológico primário. As palavras em qualquer idioma vão aos poucos se afastando do seu significado primário e acabam significando coisas muito diferentes da raiz.
          Em português a palavra paixão pode ser utilizada para falar daquele sentimento inicial que uma pessoa sente por outra de outro sexo e dizemos que esta pessoa está apaixonada. Este sentimento até certo ponto é normal e pode acabar ou se intensificar com o tempo. O grande problema é quando ele se torna algo doentio, cego e sem o uso da razão.
          Você com certeza já se sentiu apaixonado e não achou tão ruim! Quando nos apaixonamos por alguém não tiramos esta pessoa da cabeça. Como diz Gary Chapman no livro As cinco linguagens do amor:

“Nesse patamar, estar apaixonado (a) é uma experiência eufórica. Um fica emocionalmente obcecado pelo outro. Dorme-se pensando nele (a). Levanta-se e aquela pessoa é a primeira coisa que nos vem à mente. Ansiamos por estar juntos. Gastar tempo um com o outro é como estar na antecâmara do céu. Quando andamos de mãos dadas, é como se nossos corações batessem no mesmo compasso. Beijaríamos um ao outro para sempre, se não tivéssemos de ir à escola ou ao trabalho. O abraçar estimula sonhos de casamento e êxtase.”          


          O grande problema é que algumas pessoas não sabem utilizar o lado racional dos sentimentos e uma paixão pode facilmente virar uma obsessão. Gary Chapman nos diz que devido ao fato da paixão se transformar facilmente em obsessão algumas pessoas a reprimem totalmente, entretanto podemos analisar sob outro ângulo:

“As pesquisas realizadas parecem indicar que existe uma terceira e melhor alternativa: reconhecer que a paixão é o que é — um pico emocional temporário — e então desenvolver o amor verdadeiro com nosso cônjuge. Esse tipo de sentimento é de natureza emocional, mas não obsessivo. É o amor que une razão e emoção. Envolve um ato da vontade e requer disciplina, pois reconhece a necessidade de um crescimento pessoal. Nossa necessidade emocional básica não é apaixonar-se, mas ser genuinamente amado (a) pelo outro; é conhecer o amor que cresce com base na razão e na escolha e não no instinto. Preciso ser amado por alguém que escolheu me amar, que vê em mim algo digno de ser amado.”
          Em nosso relacionamento com Deus passamos por algo parecido com o sentimento que acabamos de analisar. A Bíblia chama isto de “primeiro amor”. Algumas pessoas quando conhecem a Jesus chegam a ficar meio bobas e meio fora de si, mas uma coisa é marcante; elas sentem um profundo desejo de estar nos cultos, de evangelizar, de orar e um profundo sentimento em relação a Deus muito acima da média dos demais crentes.
          Lembro-me da minha própria experiência de conversão. Converti-me aos 15 anos de idade e posso dizer que me apaixonei por Jesus. Cheguei até mesmo a marcar em uma agenda todos os dias nos quais eu ia aos cultos e no primeiro ano de minha conversão não faltei aos cultos e demais atividades da igreja nem um só dia! A minha agenda toda marcada foi um motivo de orgulho! Devorei as Escrituras; passava horas a fio lendo a Bíblia, pois queria aprender mais e mais sobre a fé. Se sabia que haveria uma vigília de oração lá estava eu. Se os irmãos marcavam para orar no monte, lá estava eu também. Fiz parte de um grupo de jovens e a cada domingo num intervalo de quinze dias íamos a um bairro na zona rural de Teresópolis para realizar cultos no qual precisávamos andar duas horas a pé para chegar e duas para voltar. Às vezes íamos um pouco mais longe e andávamos oito horas somadas a ida e a volta! Fiz parte de um grupo de evangelismo e evangelizamos bairros inteiros entrando de casa em casa.
          Eu fazia determinadas coisas e depois ficava com a consciência pesada achando que havia pecado e então ia correndo aos mais adiantados na fé para perguntar se o que eu havia praticado era pecado ou não; afinal eu precisava buscar ter uma vida de consagração. Eu aprendi que o cristão tinha rir moderadamente e quando começava a dar muitas risadas me sentia um pecador!
          Confesso que fiz também algumas coisas ridículas das quais me envergonho, mas na época achava estar sendo fiel a Jesus. Como em um dia em que os jovens de minha igreja estavam jogando futebol num campinho próximo a nossa casa e cheguei à beira do campo e com o dedo em riste lembrei-lhes do juízo de Deus aos jogadores! Com o passar do tempo até mesmo eu batia uma bolinha vez por outra!
          Também com o passar do tempo o ardor foi-se esfriando e houve uma época de minha vida onde fiquei muito acomodado. Graças a Deus nunca abandonei a fé, contudo a fé se esfriou e ler a Bíblia, ir aos cultos e outras coisas já não ardiam mais no coração. Eu passava dias, semanas ou meses sem ler as Escrituras ou orar. Mesmo como músico cantar ou adorar ao Senhor com meu violão ou teclado não tinham muito mais “sabor”. Eu não sabia, mas no reino espiritual foi colocada uma faixa diante de mim com o dizer:

“BEM VINDO A RELIGIOSIDADE!”

Infelizmente, isso acontece praticamente com todas as pessoas que se convertem


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Amar ao Senhor com coração, alma e força: Um ato da vontade

          Você pode continuar não concordando que o termo paixão não é o mais apropriado, mas a raiz hebraica da palavra coração vem de "labab" e significa: 
“arrebatar o coração, acelerar o coração” e é isso que acontece quando conhecemos a Jesus. O nosso coração fica arrebatado, acelerado! Estamos no primeiro amor! Se perdemos aquela alegria e motivação iniciais precisamos buscá-las novamente. O amor verdadeiro é muito mais atitude do que sentimento. O amor verdadeiro deve passar pela vontade muito antes de passar pelos sentimentos. 
          Está comprovado pela ciência que amor é um ato da vontade. Decidimos amar ou odiar uma pessoa. De que maneira você acha que cumpriremos o mandamento de Jesus de que temos que amar os inimigos? Você acha que em um belo dia vamos acordar e sentir um profundo sentimento de amor por aquele chefe ou vizinho chato? Ou inexplicavelmente começaremos a amar aqueles que nos perseguem e fazem mal? NÂO!!!! Isto é um ato da vontade!
          Só vamos amar ao Senhor com mais intensidade se tomarmos a decisão de fazê-lo. Por isso que sabiamente a Bíblia fala de equilíbrio quando diz que devemos amar ao Senhor com o coração, com a alma e com força. Temos que decidir passar mais tempo com o Senhor em oração. Temos que nos disciplinar para ler e estudar as Escrituras regularmente. Precisamos ser mais zelosos com os nossos compromissos e horários na obra de Deus.

DIGA UM NÃO! A RELIGIOSIDADE

          Como podemos demonstrar amor ao Senhor se formos relaxados com sua obra? O que o Senhor pensa de nós quando cantamos que o amamos e, entretanto vivemos uma vida de religiosidade e legalismo? Que expressão de amor é essa que quando marcamos um “encontro” semanal de duas horas com o nosso amado damos atenção a todos que estão ao redor menos para Ele? Vamos à casa do nosso Amado e lá Falamos com as pessoas sobre os negócios, Tv, internet, ensaios, peças e uma porção de outras coisas e não lhe dirigimos uma só palavra? Quando chega a hora de conversar com Ele, de cantar uma canção de amor para Ele ou de Elogiá-lo (louvá-lo) há pessoas que ficam de olhos abertos reparando em tudo e todos ou simplesmente abaixam a cabeça e ficam impacientemente esperando a conversa terminar? O que Ele pensa quando chega o momento em que Ele vai dirigir a Palavra a nós a fim de nos aconselhar, edificar, exortar, nos dar ânimo, expressar o seu amor por nós e quase dormimos ou então ficamos a conversar com quem está ao nosso lado e não vemos a hora do encontro terminar?
          Se utilizarmos a razão e a intensidade teremos um coração acelerado e arrebatado pelo Senhor. Comece a ler as cartas de amor que o Senhor deixou para nós. São 66, portanto vá devagar. Vá lendo aos poucos, vá meditando em cada palavra. Grave-as em sua mente. Comece pelas poesias (Salmos) ou relembre a história do nosso amado (evangelhos). Cante canções de amor para Ele durante o dia. Converse com Ele a hora que você quiser, no lugar que você quiser, pois o nosso amante está sempre bem pertinho de nós. Ele nunca se distancia; nós é quem nos distanciamos dele. Você está triste? Conte para ele o motivo de sua tristeza, mas nunca, nunca o abandone nestas horas! Você está alegre? Compartilhe com Ele sua alegria! Você está sendo injustiçado? Recorra a Ele, pois dele procede a verdadeira justiça!
          Nunca pare de adorar. Nunca pare de louvar. Ainda que não haja vontade para isso adore a Ele mesmo assim pois o seu louvor vai quebrar os grilhões que aprisionam os teuS sentimentos e em pouco tempo você o fará com alegria. Simplesmente não pare nunca de adorá-lo
          Gosto muito de um cântico do David Quinlan que se chama: “Quero ser como criança”. Provavelmente você o conhece. Gosto de adorar ao Senhor com este cântico, pois ele nos leva a perceber o quanto somos dependentes do amor de Deus.


Quero ser como criança. Te amar pelo que és. Voltar a inocência e acreditar em ti.

Mas às vezes sou levado pela vontade de crescer. Torno-me independente e deixo de simplesmente crer


Não posso viver longe do teu amor Senhor. Não posso viver longe do teu afago Senhor

Não posso viver longe do teu abraço Senhor. Abraça-me, abraça-me... Abraça-me com teus braços de amor


          Ainda que você não sinta o coração acelerado ou arrebatado por Jesus comece a declarar o seu amor por Ele mesmo assim. Use o estilo musical que você gosta, busque nas Escrituras textos onde haja profunda doxologia, no seu a sós com Deus separe bastante tempo para louvar, bendizer e agradecer ao Senhor. Como a mulher pecadora na casa de Simão, renda-se ao Senhor e o ame muito porque muito nós fomos perdoados pelo Senhor. Com o tempo você perceberá que o sentimento de amor pelo Senhor irá aumentar e você terá o desejo de estar perto do dele todo dia, toda hora, todo instante, todo minuto, todo segundo e para sempre! E o mais importante o seu amor pelo Senhor irá transbordar e contagiará outras pessoas!


Pense seriamente nisto e avalie o seu relacionamento com Deus.

Pr. Valdecy de Jesus Marques